
Celestino, Celestial, um aplauso no adeus ao dono do lugar onde nasceu o Nós do Morro
(por Luiz Paulo Corrêa e Castro)

Corria o ano de 1986. Havia um bar localizado no alto da então Estrada do Tambá, que servia de ponto de encontro entre o “pessoal dos prédios” e os moradores do morro do Vidigal.
O Bar-raco, de propriedade do Celestino, Celeste para os freqüentadores mais assíduos; Celestial para os mais sedentos.
Celestoso para os marrecos mais novos que não mergulhavam muito fundo ainda.
O Bar-raco era uma espécie de tribuna e, nas suas mesas, se podia ouvir discussões – já naquele tempo! – da crise do Botafogo, da canela de vidro do Zico – o craque (?) da época ou das últimas do Roberto Dinamite, aliás, um dos maiores ídolos do vascaíno doente Celestino. Também se discutia política, cinema, artes plásticas e demais áreas da cultura nas mesas do saudoso Bar-raco.
Como ninguém era de ferro, falava-se também um pouco – só um pouquinho – da vida dos outros e das novidades e caras novas e talentos que começavam a despontar no cenário do Vidigal – entendendo-se como talento a largura das coxas, tamanho dos bum bums cor dos olhos e outros detalhes menos importantes. Nesse ambiente anárquico, muitas amizades surgiram, se criaram, fortaleceram-se e, por que não, terminaram. O Celeste estava sempre lá, do alto do seu balcão, observando tudo, invariavelmente de cara fechada depois das duas horas da madrugada, relutando para servir a última das 20 saideiras pedidas pelos “barracomânos não anônimos”.
Desse cruzamento de gente oriunda dos mais variados lugares, foi dada a saída para uma impossibilidade criada pela mente de um maluco sonhador: a possibilidade de criar um agrupamento de jovens com talento a ser desenvolvido e sem espaço para tal. Aí, nessa concentração de menos de 80 metros quadrados, fervia o caldo de cultura que serviu de adubo para o Nós do Morro.
O Bar-raco era um microcosmo do Vidigal dos anos 70/80. O Nós do Morro nada mais fez do que aproveitar essa massa que circulava por ali e pelos arredores, aglutinar todo mundo e embarcar numa viagem que completa 22 anos, agora em 2008. Não é à toa que em muitos dos espetáculos do grupo que falam do cotidiano do Vidigal, um dos cenários principais eram os bares, como o Bar-raco, que possibilitaram a montagem do inesquecível Noites do Vidigal.
E o Celeste sempre esteve lá, sempre esteve aqui, sempre esteve ao lado. Ao nosso lado. Em todos os espetáculos, colando as críticas e matérias na imprensa a respeito do Nós do Morro na parede do seu bar. No final dos anos 90, o Bar-raco fechou, assim como o Pé Sujo havia fechado a porta anos antes. O Celeste criou então um novo bar, na esquina das ruas Benedito Calixto e Olinto de Magalhães e que virou o point da “galera do Teatro”.
Em 2006, na comemoração dos 20 anos do Nós do Morro, o Celeste também estava lá, para receber uma justa homenagem e um prêmio. O problema, o chato, o ruim disto tudo que envolve a essência do ser humano – que é a de não saber de onde, por que, pra que veio, nem pra onde vai – é que, em 2008, quando o grupo faz 22 anos, o Celeste não vai estar lá. Pelo menos, em carne e osso. Porque, em espírito – se eles existirem mesmo – com certeza, ele vai estar lá. Valeu Celeste! Descanse em paz e leve com você a certeza de que o Nós do Morro não vai te esquecer. Que o Nós do Morro te ama.
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